domingo, 7 de fevereiro de 2010

Como caranguejos

O melhor "livro" que já li sobre o Brasil é o longo verbete na Enciclopédia Britânica, edição de 1973. Com o tom neutro desse tipo de trabalho, que, afinal, pretende ser vendido a pessoas dos países descritos, e não pode hostilizá-las, o autor não se furta ao comentário de que o Brasil é imenso e solitário.

Quem pode discordar? Fala da emergência do contrabando no século XVII, que se tornou uma das atividades mais eficientes da nossa sociedade. Em 1970, em Ipanema, se eu encomendasse pela manhã três pacotes de Marlboro e algumas garrafas de Black Label ou Chivas, estariam à tarde na minha casa. Não se podia confiar em qualquer outra instituição legal, do comércio disso e aquilo. Bobby Kennedy me disse numa conversa que em todas as suas andanças pelo Brasil não conheceu ninguém que soubesse quem era o presidente da República. Respondi que Gore Vidal escrevera que um terço das pessoas elegeram Franklin Roosevelt governador de Nova York, em 1928, pensando que votava em seu primo Theodore. Mudamos de assunto, mas, claro, a abulia e anomia do Brasil não se comparam às dos EUA, ainda que, numa pesquisa do Washington Post, 40% dos indagados achavam que a Declaração da Independência era uma espécie de peixe. A socidade de massas é por definição o fim da civilização. Bolsões de vida inteligente sobrevivem a duras penas.

Países consolidam sua identidade em períodos longos de paz. Mulheres se vestiam coloridamente nos 1800 na Merry England, alegre Inglaterra, mas, depois da derrota de Napoleão em Waterloo, após trinta anos sob influência dos evangelistas, tiveram seu corpo coberto de crinolinas e o diabo a quatro. Não havia dólar moeda, as verdinhas, antes da guerra de Secessão em 1861, e a mobilização que acarretou a supremacia do Leste, vulgo "norte", forçou um mercado comum entre os quarenta e tantos estados, ideia que só ocorreu à Europa Ocidental depois de duas guerras atrozes; nos EUA, depois da Guerra Civil, 1865, houve a mais rápida e vasta expansão industrial de que se tem conhecimento, durando até os 1900. No Brasil, meu palpite é que a estagnação se tornou ordem do dia no governo de Pedro II. O mundo que chamamos Primeiro estava em convulsão industrial, sendo cortado por estradas de ferro (o estopim da Revolução de 1848; uma colheita falhada permitiu a milhares de camponeses ir de trem, pela primeira vez, a Paris, onde não encontraram o que fazer e se tornaram massa de manobra dos revolucionários), e o próprio latifúndio se organizava desde o século XVIII para a exportação, que enriqueceu a Grã-Bretanha, tema já citado do marxista Hobsbawm. O "império" de Pedro II foi entremeado de revoltas e houve até a guerra do Paraguai, mas não conheço indício, à parte vagos anseios republicanos, separatistas (Farrapos) e quejandos, de que alguém pensasse em converter o país numa máquina de fazer riquezas. História recente, O projeto do arcaísmo, de José Fragoso e Manolo Florentino, sugere que ficamos deitados em berço esplêndido mas com um negro nos abanando. Isto quando a Inglaterra, o maior império do século XIX, já estava em guerra aberta contra a escravidão, e os EUA, futuro senhor dos mares, terras e ares, tinham emancipado os escravos na guerra civil em que se unificou para o grande arranque industrial. É nosso hábito caminhar para trás como caranguejos.

PAULO FRANCIS, Trinta anos esta noite, p. 174-5

sábado, 23 de janeiro de 2010

Nariz de palhaço pra tomar o poder

Imagine que um espaço público relegado às baratas na sua cidade agora tem seu uso proibido pela Prefeitura. O que você faz? Caga-e-anda porque nunca se interessou mesmo por ele? Procura instâncias representativas como MP, Defensoria ou algum veículo de imprensa ou associação para sugerir providências? Protesta violentamente, tentando agredir o prefeito, quebrar coisas?
fonte: Revista Piauí [precisa de cadastro]

Não. A onda do momento, assim como o namoro depravado, é o PROTESTO BEM HUMORADO.

Os últimos descobridores do novo continente aportaram na costa de Belo Horizonte, com direito a prancha de surfe, camisa havaiana e óculos de sol. A Praça da Estação virou praia! hahaha [não consigo parar de rir, me ajudem]. 
Essa vai pro Orkut! 

Depois do surgimento do CQC e de todos acharmos que eles eram gênios porque expõem os políticos ao ridículo [confesso que também entrei nessa no começo], a empolgação passou e o SARNEY continua Presidente do Senado, para pegar um caso-síntese.  Continua ecoando o estrondo causado pelo DELFIM ao contar pro ANGELI que fazia coleção das tirinhas em que aparecia. Faz mais de 20 anos que - se podemos colocar nestes termos - o quadrinista viu que tinha mais lógica fazer troça da sociedade e não dos políticos. Aliás, como diria o próprio DELFIM: nenhum dos nossos deputados foi eleito na Argentina...


Enquanto isso a juventude digital revive a tradição das marchinhas de carnaval com letras de protesto, mas agora o que vale não é dar umas risadas na hora e fazer um exercício de compositor/humorista de improviso; estamos na era do flash mob e queremos aparecer no YouTube.


Se você quer ir mais além pode começar numa comunidade do Orkut e fundar MAIS UM partido para dar um status de atitude ao seu grupo virtual sob o mote realista de "acabar com toda a intervenção do Estado na economia".


Ainda sonho com o dia em que um prefeito proibir  o uso de uma praça terminantemente e sem motivo razoável fará gente no Braziu perceber que o rei está nu, mas o fato é que ainda não foi nesta geração que encontramos o fio da meada.


Como sempre acontece nesses casos, o fetiche foi flagrado nos EUA e ganhou uma epítome - been there, done that - antes que alguém no Brasil esboçasse umas palavras para tentar explicar.



Ou teria um porta voz da geração passada profetizado quando disse que you're even better than the real thing?

PP: owned



 PP: vc leu antes no 16t  ou a vida imita a arte

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

embrulhando o peixe (velhas opiniões para velhas notícias)

o haiti é logo ali, angra é um pouco mais além e o suriname já tá longe.
mas eu carrego papéis meses a fio, esqueço anotações em agendas, cadernos e bolsos de calça. e eis que me surge a seguinte recomendação (perdida em algum dia semanas atrás na agenda): “escrever texto sobre os eslovacos”.

Muitos talvez nem se lembrem dessa notícia já que tanta coisa aconteceu depois. mesmo na época a atenção não foi tanta, uma notas de jornal em tom jocosos, quase anedótico, ou, quando na imprensa dita mais séria, fez-se menção ao mal-estar entre os governos da irlanda e da eslováquia.

admito que não consultei a fundo as fontes de todos as mobilizações, opiniões e saberes do mundo, a saber: o facebook, o twitter e a wikipedia. mas me causou espécie (eita termozinho pedante não? parece que fui abordado por uma manada de búfalos) o fato de ninguém mencionar o atentado aos direitos civis que foi esse ‘teste de segurança’.

Ok, tudo bem a eslováquia preocupar-se com atentados. dada a situação geopolítica por lá é até compreensível eles exagerarem na prudência.
Mas daí a se transformar num cenário de v de vingança (a história em quadrinhos, não o filme)é um pouco demais!

nem sei o que é pior, a polícia colocar explosivo na bagagem sem o consentimneto do cidadão, ou a grande mídia achar isso uma prerrogativa comum das autoridades. tenho certeza de que houve quem se incomodou, mas é triste - embopra não seja exatamente surpreendente - que os canais oficiais de comunicação tenham praticamente silenciado quanto a esse aspecto de violação das liberdades civis.
claro, liberdade serve pra bandidos e, num estado de terror, todos podem ser bandidos, maiakovski não pensaria em drama melhor.

de um lado temos a paranóia: raios-x, porta giratória em bancos, não levar tesoura de unha no avião....
de outro temos todo um grupamento que não se importa – na verdade até cultua – a exposição da intimidade: twiitteiros, blogueiros, caçadores de papparazzi (há quem corra trás deles, ao invés de fugir) e por aí vai.

que esses dois grupos se encontrem e se amem por toda a existência. Eu não me importo.

mas eu não quero fazer parte de uma vida em que se torna celebridade apenas por viver a própria vida, quando muito ser conhecido pelos meus atos. a intimidade eu escplhoa quem entregar.

*******

de todo modo, eu bem que gostaria que os países que mais se preocupam com o terrrorismo passasem de pensar através do “paradoxo do cadeado” (quanto mais sofisticada a fechadura, mais refinado o ladrão vai se tornar) e começassem a pensar em como analisar/o que modificar pra a tornarem-se menos um alvo aos terroristas. ah, vão dizer, isso é utópico e polianesco. talvez, se tomarmos a perspectiva em seu sentido mais simples e ingênuo. mas também é ingênuo pensar que não poder-se-ia resolver grande parte dos conflitos através de soluções mediadoras e políticas.

da mesma forma, a proliferação de celebridades também diminuiria se o culto a elas fosse realmente menos explícito. se o invés do falso blasé que predomina (aquele do tipo ”acho cafona esse jeito paris hilton de ser”) não lígassemos para esse tipo de notícia, não clicássemos na página com a vida dos bigbrothers, não comprássemos a revista com a ex-atriz na praiasr a revista. mas pensar que isso pode mudar, isso sim, é ingenuidade.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

GABIROSWALD DE SOUZA

JÁ QUE O ASSUNTO É POLÍTICA, vou de futebol, para arriscar alguns chutes [em varios casos é torcida mesmo. Matemática pura, diria outro menos modesto] quanto o campeao d'alguns campeonatos estaduais de ludopédio.


CARIOCA: O framengo vem com o mesmo time do Brasileirao de 2009, mas vou torcer contra: vai dar Fluminense na cabeca; inclusive o Fluzao ja estreou com o time completo, o que pode fazer a diferenca no final. Dia 31 de janeiro, teremos o primeiro Fra-Flu.


PAULISTA: Sendo o Corinthians [bi-campeao invicto!] ou nao sendo os bambis, tá valendo.

MINEIRO: O galo nao levando goleda no primeiro jogo da final, já esta bom demais.


GAÚCHO: Prefiro o Inter mas os técnicos estao 'trocados' [o retranqueiro no Colorado e o moderninho no Gremio].
PERNAMBUCANO: Sport Club Recife, também bi-campeao invicto.


BAHIANO: se foda o baiano, tomara que ganhe algum time do interior. Vou de Colo-colo pois tenho um amigo em Ilhéus.


ALAGOANO: UH!, ASA GIGAN-TEE!!

MAIS SOBRE MONARQUIA

ONTEM [DOMINGO, 17 DE JANEIRO], Dioguin’ me contou que iria publicar aqui não somente um texto sobre a monarquia, mas um texto defendendo-a. Acho que ASS [não resisti, embora o presente não seja um asno ou um c*] seria um bom aliado em tua luta, viu mano Djou? Não é possível que ele escreva daquele jeito e seja, logo, democrata. Aliás, meu estilo também pode ser pouco democrata, mas, infelizmente, é mais por seqüelas de comunismo juvenil [redundância?].





PENSEI NA COISA, e um ponto que me ocorreu: não existem mais monarquias SEM parlamento, né? Imagina o tanto de imposto que [agora] vai para a União [no caso, os 'cofres reais'?], e o Congresso sem poder pedir/exigir um pedaço do bolo... não vai ‘virar’ nunca. E, no caso, como o poder emanaria do Rei, Estados e Municípios existirão como meras fronteiras, sem poder fiscal. Não dá mesmo, imagina o tanto de nego influente que iria perder a boquinha...




MAS, IMAGINEMOS QUE, POR UM MILAGRE, SEJA INSTAURADA A MONARQUIA [Aliás, éramos um Império, né? Nunca tivemos um Rei. Escrevo, nós brasileiros não Silvícolas, Quilombolas, Conselheiros ou coisas do tipo]. Se de repente o tal Rei começa a cortar o máximo [algo perto disso, obviamente] em impostos, ficarem só no montante 'necessário' para a manutenção da 'casa real' [incluiria mecenato, por exemplo, como uma forma de 'aumentar' a relevância da casa dos Orleans e Braganca entre os aristocratas allova? Não cinema a preços de Hollywood, claro, se não vira sacanagem], e disser que a lei agora é 'cada um faça o seu', desde que ' não agrida outrem', acabamos com essa corja política que vive de sugar o dinheiro alheio. Ou seja, se alguém, em nome de alguma Prefeitura, quiser cobrar IPTU, para você simplesmente morar em um terreno que é seu, essa cobrança será indevida. Tribunais? Que se mantenham por si [com as taxas processuais que sejam necessárias para isso, arbitrar litígios], talvez até exista um ‘tribunal real’, mas mais como negócio de que como privilégio.




ESTRANHO, dessa maneira a Monarquia acabaria sendo um caminho para um modelo libertário, anarco-capitalista, mas ainda haveria o perigo do príncipe ser um porra-louca e colocar tudo de pernas para o ar, contrariando as leis que ele mesmo emana, sendo que o único remédio contra isso é a malfadada violência revolucionária, que não é nem um pouco agradável.

domingo, 17 de janeiro de 2010

No qual defendo a restauração da monarquia

Antes do meu tão aguardado texto sobre a publicidade, venho aqui fazer uma proposta aos brasileiros em geral e aos publicitários em particular.


Andei vendo trechos do filme do LULA e acho que como ele não estará entre os candidatos na eleição deste ano perde-se a oportunidade de constatar um fato: somos monarquistas.


Não que haja algo errado com isso, necessariamente. Há grandes nações monarquistas. Não me parece que abriguem as instituições mais adequadas a um país como o Brasil, continental, de povo heterogêneo, mas também não acho que seria um fator de atraso.


A bem ver, pior que um sistema inadequado às características do país é um sistema adequado [como a república federativa], mas que ele rejeita.


Mas estou adiantando algumas coisas.


Então somos monarquistas?


Olha, fora um ou outro grupo mais consciente do papel de um governo, o que vejo por aí é gente que quer uma pessoa. Um tipo honesto e trabalhador, às vezes. Noutras vezes um tipo estudado e fino; já ouvi no Nordeste tempos atrás. Hoje, acho que se regrediu: um homem do povo [o que muitas vezes quer dizer um homem NÃO estudado]. Alguns querem alguém que traga a experiência do mercado. Os velhos querem alguém que exiba as credenciais conservadoras, de modos, fé cristã e casamento sólido. Ninguém resiste a um FILHO DA TERRA, e até fluminenses caem no ridículo de querer um representante do Rio de volta no poder.


O mercado gostaria de poder manter as coisas como estão pelo simples fato de já terem sido muito piores; mas a imensa maioria gostaria de contar com uma SOLUÇÃO LULA porque ele é quem é, e não pelo grupo que traz consigo nem as ideias que a comitiva cultiva.


Nunca chegaremos a votar em partidos ou plataformas. Queremos votar em gente. Quando achamos um que presta, queremos mantê-lo por quanto tempo for possível. Se ele tiver alguém a indicar, achamos ótimo. Que diferença isso tem de uma dinastia? CAPITAL HUMANO, acho eu.


Toda vez que compramos um produto elegemos um candidato na base do tempo de exposição na TV, pinçamos do dia-a-dia das negociatas e das falcatruas aquele que conseguiu ficar melhor com todo mundo, isto é: provavelmente o que tiver prometido contrariar menos interesses e promover menos mudanças [tão necessárias para pararmos de patinar]. Não existe hipótese d'esse eleito realmente ter preparo intelectual, retidão moral, compromisso com o País ou qualquer das qualidades que em teoria desejamos que tivesse.


Que tal trocar toda a papagaiada, evitando o gasto de rios de dinheiro e a perda de tanto do nosso tempo útil, por uma família que ao menos conhece o Brasil e sua história e tem uma imagem por que zelar?


É certo que isso praticamente eliminaria a profissão de publicitário do mercado, mas aposto que muitos deles [os melhores] preferem estudar sobre o século 19 e escrever romances ambientados em Petrópolis do que vender a nova linha de crédito da Caixa. E aí? Topam?