O melhor "livro" que já li sobre o Brasil é o longo verbete na Enciclopédia Britânica, edição de 1973. Com o tom neutro desse tipo de trabalho, que, afinal, pretende ser vendido a pessoas dos países descritos, e não pode hostilizá-las, o autor não se furta ao comentário de que o Brasil é imenso e solitário.
Quem pode discordar? Fala da emergência do contrabando no século XVII, que se tornou uma das atividades mais eficientes da nossa sociedade. Em 1970, em Ipanema, se eu encomendasse pela manhã três pacotes de Marlboro e algumas garrafas de Black Label ou Chivas, estariam à tarde na minha casa. Não se podia confiar em qualquer outra instituição legal, do comércio disso e aquilo. Bobby Kennedy me disse numa conversa que em todas as suas andanças pelo Brasil não conheceu ninguém que soubesse quem era o presidente da República. Respondi que Gore Vidal escrevera que um terço das pessoas elegeram Franklin Roosevelt governador de Nova York, em 1928, pensando que votava em seu primo Theodore. Mudamos de assunto, mas, claro, a abulia e anomia do Brasil não se comparam às dos EUA, ainda que, numa pesquisa do Washington Post, 40% dos indagados achavam que a Declaração da Independência era uma espécie de peixe. A socidade de massas é por definição o fim da civilização. Bolsões de vida inteligente sobrevivem a duras penas.
Países consolidam sua identidade em períodos longos de paz. Mulheres se vestiam coloridamente nos 1800 na Merry England, alegre Inglaterra, mas, depois da derrota de Napoleão em Waterloo, após trinta anos sob influência dos evangelistas, tiveram seu corpo coberto de crinolinas e o diabo a quatro. Não havia dólar moeda, as verdinhas, antes da guerra de Secessão em 1861, e a mobilização que acarretou a supremacia do Leste, vulgo "norte", forçou um mercado comum entre os quarenta e tantos estados, ideia que só ocorreu à Europa Ocidental depois de duas guerras atrozes; nos EUA, depois da Guerra Civil, 1865, houve a mais rápida e vasta expansão industrial de que se tem conhecimento, durando até os 1900. No Brasil, meu palpite é que a estagnação se tornou ordem do dia no governo de Pedro II. O mundo que chamamos Primeiro estava em convulsão industrial, sendo cortado por estradas de ferro (o estopim da Revolução de 1848; uma colheita falhada permitiu a milhares de camponeses ir de trem, pela primeira vez, a Paris, onde não encontraram o que fazer e se tornaram massa de manobra dos revolucionários), e o próprio latifúndio se organizava desde o século XVIII para a exportação, que enriqueceu a Grã-Bretanha, tema já citado do marxista Hobsbawm. O "império" de Pedro II foi entremeado de revoltas e houve até a guerra do Paraguai, mas não conheço indício, à parte vagos anseios republicanos, separatistas (Farrapos) e quejandos, de que alguém pensasse em converter o país numa máquina de fazer riquezas. História recente, O projeto do arcaísmo, de José Fragoso e Manolo Florentino, sugere que ficamos deitados em berço esplêndido mas com um negro nos abanando. Isto quando a Inglaterra, o maior império do século XIX, já estava em guerra aberta contra a escravidão, e os EUA, futuro senhor dos mares, terras e ares, tinham emancipado os escravos na guerra civil em que se unificou para o grande arranque industrial. É nosso hábito caminhar para trás como caranguejos.
PAULO FRANCIS, Trinta anos esta noite, p. 174-5

